De temperaturas e outros sentimentos

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Acho que está na Bíblia uma frase que seria mais ou menos assim : “porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”. Se não estou enganada, trata-se de uma passagem do Apocalipse – único “livro” que eu nunca li, apesar de minha formação católica, menina criada em colégio de freira, como diziam por aí. Cito esta frase agora não para falar de religião ou algo que o valha, mas porque ela sempre me vem à cabeça quando sou obrigada a conversar com pessoas mornas. E hoje tive de fazer isto.

Sabe aquele tipo que não vibra, que não pulsa ? Então…. Que nunca está triste, mas também não está alegre ? Que nunca fala bem, mas também não fala mal ? Que sempre está pronto para dizer que compreende perfeitamente seja lá o que for ? Eu não confio. Acho que tem alguma coisa errada com os mornos.  Assim como acho que tem alguma coisa muito errada com os que não têm posição. Porque ao subir no muro só quem fica bonito é gato – o resto só demonstra uma covardia que em nada contribui para mudar alguma coisa no mundo. Aliás, também tenho sérias restrições aos que querem mudar o mundo como quem aperta controle remoto – e vivem fazendo passeatas no tuiter, no facebook, em qualquer lugar ao abrigo da chuva, do vento, do sol, da sombra, da vida, enfim.

Eu gosto mesmo é do movimento, do exagero, do choro, da gargalhada, do apagão e do grito coletivo quando a luz volta, daquela cara de sapeca das crianças pequenas que sabem que fizeram “arte” e não querem se esconder de ninguém, da polêmica, das causas, das coisas, do discurso às claras, dos que sabem dizer “isto está errado!”, sem ficar se perguntando “o que eu vou ganhar se me meter nisto ?”.

Eu gosto de quem diz “desculpa”; de quem acerta e comemora; de quem tem dúvidas e pede ajuda, de quem nunca diz para o outro “este problema é seu”, como quem lava as mãos. Por que, sinceramente, tem coisa mais sem graça do que quem não erra, não acerta, não duvida e não vibra ? Morno. Nem quente, nem frio. Morno. O estágio preliminar daquilo que não tem vida.

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De volta ao ponto de onde parti

 

 

 

–       Mãe, o que  você está lendo ?

Ela perguntou, enquanto me mostrava que terminara de ler o segundo livro em menos de uma semana. Esbocei um sorriso amarelo,  ao mesmo tempo em que lhe dava parabéns. Em poucos segundos, lembrei de quem já fui. Porque até alguns anos atrás eu me orgulhava disto, de ler muito, muita literatura de qualidade, muita coisa interessante. Hoje, apenas muita vontade. Em algum lugar eu deixei a capacidade de administrar o tempo para não abrir mão de prazeres como a leitura despretensiosa que não vai virar nota de rodapé, nem citação de artigo acadêmico que se transforma em número no Lattes.

Olhei para a estante repleta de títulos comprados como prova da promessa de retomar o rumo. Repactuei mentalmente minhas metas – repactuar é um verbo do nosso tempo, eu acho.

– Hoje eu começo este aqui – disse, alcançando sem pensar o exemplar ainda novinho de As aventuras de Pinóquio: história de um boneco, em capa dura, edição especial, limitada e belíssima da Cosac Naify.

O título não deve ter sido coincidência. No posfácio assinado por Ítalo Calvino, um motivo para voltar àquela leitura da infância, agora transvestida de obra de arte:

“Quando comecei a escrever considerei Pinóquio um modelo de narrativa de aventuras; mas creio que sua influência devia ser estudada em todos os escritores de nossa língua. dado que este é o primeiro livro que todos encontraram depois da cartilha (ou mesmo antes)”

 

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O Brasil não conhece o Brasil

Cada vez que eu leio algo assim fico ainda mais envergonhada. Puxa, em pleno século XXI ? Que absurdo !!!!! A nota saiu na coluna da Sonia Racy, hoje, no Estadão. E a Caras, cadê ?

Senhores do Destino

Choca, em Trancoso, a repetição, altamente concentrada, da disparidade econômica e social que existe pelo Brasil afora. Em escala bem menor que a do Rio de Janeiro, onde favelados moram colados a apartamentos luxuosos, o município baiano atrelado a Porto Seguro (já tentou sua independência, sem sucesso) tem uma só escola, doada por Elba Ramalho, onde dois únicos professores se revezam nas aulas, e um posto de saúde que a muito custo merece esse nome. A ambulância, doada por Sandra Habib – que também assumiu financeiramente a creche – não funciona por falta de dinheiro para a gasolina.
Medo de ficar doente? Bom, se o dono de uma das casas de US$ 1 milhão a US$ 6 milhões – o barão Philippe de Rothschild, por exemplo – passar mal, pode usar algum jato estacionado no aeroporto do condomínio Terravista. Mas este não foi o caso, semana passada, da atendente Marcia Lima Santos, que seria mãe pela primeira vez. Depois de se deslocar várias vezes até o Hospital Luiz Eduardo Magalhaes, em Porto Seguro (o posto de Trancoso não tem condições de fazer um parto), desconfiada de que a gestação da criança já havia
ultrapassado os nove meses, foi mandada para casa pela médica responsável. Resultado: a criança ingeriu as próprias fezes e não resistiu. Segundo se apurou, este é um fato corriqueiro por lá, sem contar outros inúmeros desleixos.

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